Quando decidi fazer o meu mochilão sozinha, eu sabia que ia me deparar com duas coisas: a individualidade e o coletivo. Sentia que de certa forma a minha individualidade seria ainda mais aflorada. Eu escolho meus destinos, eu escolho a hora de ir, a hora de ficar, o que vou comer, se vou comer ou não, etc. Me conhecer, saber o que gosto de fazer sozinha, curtir a minha própria companhia. Esse é o lado bom de viajar sozinha (leia aqui). Mas, durante minha viagem eu procurei lugares que pudesse aprender, a ter trocas, e a evoluir espiritualmente. Nesses lugares a convivência em coletivo é muito importante, e aí aparece uma divisão entre o que é coletivo e o que é individual.

A individualidade e o coletivo mochilando

Para ter uma troca, um aprendizado, eu sinto, que preciso conviver com outras pessoas. As pessoas me ensinam o tempo todo. Então, ao mesmo tempo que posso tomar algumas escolhas individuais, eu preciso saber lidar com o coletivo, dentro do meu dia-a-dia. E eu acho isso incrível.

Por mais que eu viva em coletivo nas comunidades, nos hosteis, nos lugares que trabalho em troca de hospedagem – (leia mais aqui), percebo que dificilmente tenho a minha individualidade afetada. Claro, que, eu sinto falta de um espaço só meu, mas penso que estou em sincronia com o universo, e ele sabe quando preciso ou não desse espaço e, por incrível que pareça, ele me dá no tempo certo.

©Tribo Totipah

Viver em coletivo é compartilhar

Viver em coletivo é você compartilhar o seu quarto, o banheiro, a cozinha, todo o espaço físico. É compartilhar a comida, a água, e até seus momentos de lazer. Dentro dos lugares que convivi com mais pessoas, aprendi que todos somos iguais, e todos temos direito das mesmas coisas, até mesmo da nossa individualidade. E essa individualidade cabe muito à nossa personalidade: somos únicos. E quando na minha caminhada conheço pessoas de diversos lugares do mundo, vejo suas luzes, e suas sombras, percebo que sou como elas, que todos somos um. O que nos faz individual, também nos faz coletivos. E eu chamei isso de respeito. Ou “amar ao outro como a si mesmo”.

Da mesma maneira que eu preciso do meu espaço em alguns momentos, sei que o outro também precisa. E isso funciona no coletivo também. Da mesma forma que quero comer um pedaço de pão no café da manhã, sei que todos (ou pelo menos a maioria) irá querer também – ou seja, não posso ir lá e comer tudo, sendo que existe mais pessoas no espaço que estou que também querem.

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Decisões coletivas e decisões individuais

As únicas decisões que posso tomar por mim, são as que me atingem especificamente. O meu discernimento do que é bom ou não para mim. Se quero ir, se quero ficar. Para onde vou, quando vou (isso quando estou viajando sozinha, porque se eu decido me juntar a um grupo de viajantes, essa decisão específica, será decidida no coletivo, o que é melhor para todos).

Não posso tomar decisões por outras pessoas. Isso não é coletivo. Se eu tenho uma ideia, eu proponho a todos, e a maioria irá decidir o que é melhor: isso é uma decisão coletiva, na minha percepção. E ainda assim, aqueles que não concordam são livres para tomarem suas decisões individuais, desde que não atinja o coletivo.

Eu entendo que muitos grupos precisam de líderes, mas existem líderes que são escolhidos, os que se impõem, os que pensam no coletivo e os que olham para o próprio umbigo. Então, na minha visão, eu acredito que um líder é interessante para dar um “norte” àqueles que se sentem perdidos. Mas, se o grupo é unido e tem ciência de que as decisões são tomadas pensam no todos, para favorecer todos, que todos tem voz, e que todos tem direito de propor e opinar, não vejo a importância de um líder.

©Tribo Totipah

A beleza individual e coletiva

A maior beleza do coletivo pra mim é quando as pessoas têm consciência de que elas não estão sozinhas, mas que podem estar também e não existe nenhum problema disso. É sempre nos colocarmos no lugar do outro, estar abertos para expor nossas ideias e sentimentos – se algo nos agrada ou não – e estar aberto para receber os sentimentos dos outros, resolver qualquer situação na paz e no amor. É você amar, cuidar, respeitar e se importar com o outro. E ainda sim ter seus momentos de solitude. É dividir, e ainda sim ter suas coisas pessoais. É tomar decisões por todos, mas ainda sim ter o discernimento e liberdade de ir e vir. É reconhecer que sua frustração não é culpa do outro e sim das suas expectativas. É aprendizado, é troca o tempo todo.

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